outubro 27, 2005

Outubro Sombrio

Outubro Sombrio –

Era só mais um outubro com cara de outono. Era sombrio, frio, úmido. As arvores fugiram à primavera que parece estar de férias. Em quase duas décadas esse pedaço de ano ficou adormecido, apenas vinculado à condição de mês, mês dos librianos, mês da balança e que deveria trazer justiça.
Esse ano não. Outubro estava disposto a revelar-se contra aquela mesmice, decidido a vestir sua armadura e fulminar aqueles que ficassem em seu caminho. Lembro-me, ainda que vagamente, da virada deste ano: ”Esse será o ano da virada!”, alguém falou, mas não foi um tolo: se as forças são tão poucas até para sonhar, para a esperança não é necessário força.
Quinta-feira chuvosa na cidade universitária de Santa Maria. Meio-dia, mas, como todo estudante que se preze, não farei nenhum almoço para não sujar a louça e me contento com um copo de suco e alguns biscoitos. Lembrei-me do plano, era escrever.
Pensar sobre a vida antigamente era bem mais fácil. Podia-se viajar por toda a sua extensão memorial, sensorial ou psíquica sem dar muitas voltas e pegar atalhos ou desviar dos malditos problemas. Outubro de 2005 era um problema, pois já havia o receio do que poderia vir depois e os dias tinham um gosto cinza.
Embora o albatroz já houvesse caído era fácil transcender sua penas e subir novamente, não havia matéria ou peso sobre as costas – hoje sinto pena de Atlas – e lá no alto, tudo estaria bem novamente, ainda que fosse uma mentira, era um tranqüilizante, uma dormência agradável, a fuga da selva lá embaixo.
Sei que problemas todo mundo tinha, alias o mundo era o problema. Já a essa altura eu não sabia se tinha mais coragem de revê-los, mas a saudade era grande e apertava. Entretanto, meses já haviam se passado desde a ultima vez que nos vimos e se aqui a pressão era insuportável, lá era infinitamente pior: “quais as rugas novas?”.
Me fascinava ao pensar em como as coisas perecem ao nosso redor quando tudo dá errado, e em como o universo colabora para que tudo dê errado – oh! doce crueldade!. Outubro é um mês errante, um aleijado que se arrasta pelas ruas bêbado a cambalear pela calçada, e a esbarrar nas outras pessoas. Seria mais simples se ele simplesmente ficasse em casa e cumprisse com seu mérito de ébrio. Talvez Outubro não tenha culpa de nada, apenas quis ser como os outros meses, um depois do outro, sempre na mesma ordem. Dezembro é aquela correria para as férias, não vemos a hora de chegar o fim. Janeiro nos dá “boas vindas” sempre sorridente, nem se quer sabemos que dia da semana estamos, mas pra quê? se todo dia é fim de semana?. Fevereiro tem carnaval mas depois tem as aulas e então começa tudo novamente: até os meses são injustos entre si.
É..., fétida e pútrida manha de outubro. Se ao menos fosse só chuvosa ou qualquer dia de Março ou Abril, até uma segunda de Julho talvez, mas não. O tempo passeava no caminho da constância. Liguei a TV com um pouco de culpa, mas que em um segundo eu já havia esquecido.
P.S.: fiquem a vontade para criticar, comentar, chingar e etc e talz.

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